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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Avaliação moral (Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I)


Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I
Tema – Avaliação Moral
Principal Bibliografia utilizada:não identificada;
Aula 05 e 06


Avaliação moral
Caráter concreto da avaliação moral
A avaliação moral compreende os três elementos seguintes: o valor atribuível; o objeto avaliado (atos ou normas morais) e o sujeito que avalia.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o valor se atribui a um objeto social, constituído ou criado pelo homem no decurso de sua atividade histórico-social. Portanto, a avaliação possui caráter concreto, histórico-social. Em segundo lugar, é preciso considerar que os objetos avaliados são atos propriamente humanos e que são esses o objeto de avaliação moral, no qual restringe-se a somente aqueles que, por seus resultados e conseqüências, afetam a outros; os atos humanos não podem ser avaliados isoladamente, mas dentro de um contexto histórico-social no seio do qual ganha sentido atribuir-lhes um determinado valor.
Portanto, pelo valor atribuído, pelo objeto avaliado e pelo sujeito que avalia, a avaliação tem sempre um caráter concreto; ou seja, é a atribuição de um valor concreto numa situação determinada.
O bom como valor
O ato moral pretende ser uma realização do "bom". A maioria dos tratadistas de moral pretendeu encontrar o bom em geral, absoluto, intrínseco e incondicionado. Este termo passa a indicar exclusivamente certos atos humanos que consideramos positivos ou valiosos do ponto de vista moral. O bom e o mau se encontram numa relação recíproca e constituem um par de conceitos axiológicos inseparáveis e opostos. Se trata de uma concepção puramente lógica, histórica e real. Nos povos primitivos o bom é a valentia, enquanto o mau é a covardia. Na Idade Média, é bom o que deriva da vontade de Deus ou concorda com ela, e mau ou diabólico o que a contradiz. Nos tempos modernos, o bom é o que concorda com a natureza humana concebida de uma maneira universal e abstrata; por isto, também as ideias de bom e de mau têm um caráter universal, de acordo com essa verdadeira natureza do homem enquanto ser racional ou espiritual, dada de uma vez para sempre. Mas atrás desta universalidade da ideia do bom, escondem-se aspirações e interesses humanos concretos da classe social dominante.
Eudemonismo – bom como felicidade
Foi tese de Aristóteles, homens aspiram à felicidade (eudaimonia, em grego). Mas, de acordo com as condições sociais do seu tempo, Aristóteles considera que a felicidade do homem está no exercício da razão, faculdade humana específica; ela exige uma série de condições necessárias, entre as quais: segurança econômica e liberdade pessoal.
A ética cristã transfere a sua obtenção para um mundo superior. Pensamento ético moderno (filósofos iluministas e materialistas franceses), sustenta o direito dos homens de serem felizes neste mundo, mas concebem a felicidade num plano abstrato, ideal, fora das condições concretas da vida social que favorecem ou constituem obstáculos para a sua consecução.
Aas condições sociais não deixam de influir inclusive na felicidade pessoal, pois delas depende o fato de que contemos ou não com os meios para evitarmos cair totalmente na desgraça e podermos escapar dela. Numa sociedade na qual não vigore o princípio da propriedade privada nem a onipotência do dinheiro, e na qual o destino pessoal não se possa conceber separado da comunidade, os homens terão de buscar outro tipo de felicidade.
Uma sociedade determinada forja o seu próprio conceito de felicidade, e este conceito corresponde  às necessidades das forças sociais empenhadas na manutenção da sua estrutura social.  A felicidade hoje se reduz às tendências egoístas do indivíduo ou ao seu "espírito de posse".
Hedonismo – bom como prazer
Para Prazer há dois sentidos: como sentimento ou estado afetivo agradável que acompanha diferentes experiências; e como sensação agradável produzida por certos estímulos. Quando os hedonistas afirmam que o bom é o prazer e o mau o seu contrário, referem-se aos dois sentidos citados em primeiro lugar.
1ª Todo prazer ou gozo é intrinsecamente bom Esta tese se funda no fato psicológico. Aqui o prazer adquire uma qualificação moral. 2ª Somente o prazer é intrinsecamente bom. De acordo com a doutrina hedonista, o seu valor moral não se basearia na sua bondade intrínseca ou inerente ao ato ou às suas consequências, mas no prazer que produz. Mas uma ação moralmente negativa também produz prazer; bon-dade e maldade em sentido moral teriam um valor puramente instrumental; mas, com isto, colocamo-nos fora do verdadeiro domínio moral. 3ª A bondade de um ato ou experiência depende do prazer que contém à diferença das duas teses anteriores. Para os hedonistas quantitativos, a bondade depende da quantidade de prazer, ao passo que para os hedonistas qualitativos as diferenças qualitativas de prazer produzem diferença de valor.
Por último, o hedonismo ético em geral está sujeito à mesma crítica que pode ser feita a todo subjetivismo axiológico, porque reduz um a reações psíquicas ou vivências subjetivas.
Formalismo Kantiano – Boa vontade
Kant pondera que o bom deve ser algo incondicionado, sem restrição alguma. O bom como felicidade implica uma bondade condicionada. E o bom como prazer pode acompanhar atos ou experiências de sinal moral oposto. Kant diz que nem no mundo nem fora dele é possível conceber alguma coisa que possa considerar-se boa sem restrições, a não ser unicamente uma boa vontade.
Mas esta boa vontade não deve ser confundida com um mero desejo, que se esgotasse em si, sem lançar mão de todos os meios de que dispõe, ou com uma simples intenção que não tente colocá-la em prática.
A concepção kantiana da "boa vontade", por seu caráter ideal, abstrato e universal, oferece-nos um conceito do bom totalmente inexequível neste mundo real e, portanto, inoperante para a regulamentação das relações entre os homens concretos.
Esta boa vontade e determinada exclusivamente pela razão, não é a vontade dos homens reais, determinados histórica e socialmente, e inseridos na rede das exigências, interesses e aspirações da sua existência efetiva.
Utilitarismo – bom como útil
A concepção do bom como útil tem seus principais expoentes em Jeremy Bentham e John Stuart Mill; o bom seria somente o útil ou proveitoso o que contribui para o bem-estar de um indivíduo. O utilitarismo aceitará o sacrifício do interesse pessoal, da felicidade própria ou até da própria vida a favor dos demais ou em benefício da comunidade inteira. Mas este sacrifício não será considerado bom ou útil em si, mas na medida em que contribua para aumentar ou estender a quantidade de bem para o maior número. Inclusive sacrificar a vida, neste caso, será útil ou proveitoso (isto é, bom) porque, do contrário, ocorreriam males maiores do que se se realizasse qualquer outro ato em seu lugar. Vê-se então que o bom depende das consequências. O utilitarismo concebe o bom como o útil, mas não num sentido egoísta ou altruísta, e sim no sentido geral de bom para o maior número de homens.

Para Bentham, unicamente o prazer é o bom ou útil. Para Stuart Mill, o útil ou bom é a felicidade.
Por não considerar as condições histórico-sociais nas quais deve ser aplicado o seu princípio, o utilitarismo esquece que, nas sociedades baseadas na exploração do homem pelo homem, a felicidade do maior número de homens não pode ser separada da infelicidade que a torna possível.
Conclusões a respeito da natureza do bom
 As doutrinas anteriores têm o defeito de conceber o bom de maneira abstrata, em correspondência, por sua vez, com uma maneira de conceber o homem.
A esfera do bom, portanto, deve ser procurada: numa relação peculiar entre o interesse pessoal e o interesse geral; na forma concreta que esta relação assume de acordo com a estrutura social determinada. Isso implica em que não nos aferremos a um conteúdo determinado do bom, único para todas as sociedades e todos os tempos. Este conteúdo varia historicamente. Mas o conteúdo concreto só é moralmente positivo numa apropriada relação do indivíduo e da comunidade. O bom está numa peculiar relação entre os interesses pessoais e coletivos.
Em nossa época, o bom só pode ocorrer realmente na superação da cisão entre o indivíduo e a comunidade, ou na harmonização dos interesses pessoais com os verdadeiramente comuns ou universais.

Valores (Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I)


Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I
Tema – Valores
Principal Bibliografia utilizada:não identificada;
Aula 04


Valores
Todo ato moral inclui a necessidade de escolher entre vários atos possíveis. Ter de escolher supõe que preferimos o mais valioso ao menos valioso moralmente ou ao que constitui uma negação de valor desse gênero (valor moral negativo ou desvalor). Ter um conteúdo axiológico significa que consideramos a conduta boa ou positiva, digna de apreço ou de louvor, do ponto de vista moral. Assim, pois, tanto as coisas que o homem não criou, como os atos humanos ou os produtos da atividade humana, têm um valor.
Que são os valores
 Temos assim uma dupla existência do objeto: como objeto natural; como objeto natural humano ou humanizado. Como objeto natural, é simplesmente um fragmento da natureza com determinadas propriedades físicas e químicas. Como objeto humano, dota-se de certas propriedades (estéticas, prático-utilitárias ou econômicas) que somente possui quando posta numa relação especial com o homem. O objeto adquire um valor para nós na medida em que o seu modo natural de existência se humaniza, assumindo propriedades que não existem no objeto em si, à margem da relação com o homem.
As propriedades que consideramos valiosas, existem somente baseadas nas naturais que constituem - com seu brilho, brancura, maleabilidade e dutilidade - o suporte necessário delas, ou seja, da beleza, da utilidade ou do valor econômico.
Valor econômico
O termo "valor" deriva da economia. Marx analisou o valor econômico, desvendando-nos as características essenciais do valor em geral. A análise do valor econômico se revela muito fecunda quando se trata de esclarecer a essência do valor em geral, evidenciando a sua significação social.
A mercadoria é, em primeiro lugar, um objeto útil; isto é, satisfaz determinada necessidade humana. Temos a dupla relação de valor: com as propriedades materiais do objeto; com o sujeito que o usa ou consome. Por esta razão: o objeto somente poderia ser usado ao entrar em relação com o homem social. Para que um objeto tenha um valor de uso, exige-se que satisfaça uma necessidade humana, independentemente do fato de ser natural (ar, terra virgem, pradarias naturais etc.) ou produto do trabalho humano. Quando estes produtos se destinam não só a ser usados, mas antes de tudo a ser trocados, transformam-se em mercadorias e, então, adquirem um duplo valor: de uso e de troca. O valor de troca da mercadoria é indiferente ao seu valor de uso; Somente um objeto útil pode ter um valor de troca.
Enquanto o valor de uso põe o objeto numa relação clara e direta com o homem, valor de troca aparece superficialmente como uma propriedade das coisas, sem relação alguma com ele. Mas o valor de troca, como o valor de uso, não é uma propriedade do objeto em si, mas do objeto como produto do trabalho humano. O valor de troca e uso são propriedades do objeto com relação ao homem; eles não existe em si, mas em relação com as propriedades naturais, físicas, do objeto-suporte, e também em relação com o sem o qual tal objeto não existiria, nem potencial nem efetivamente, como objeto de valor.
Definição de valor
Não existem valores em si, como entidades ideais ou irreais, mas objetos reais (ou bens) que possuem valor; somente existem na realidade natural e humana como priedades valiosas dos objetos da mesma realidade. Exigem a existência de certas propriedades naturais ou físicas que constituem o suporte necessário das propriedades que consideramos valiosas, que o são somente em potência (o que vale somente em potência adquire um valor efetivo).
Objetivismo e subjetivismo axiológicos
A concepção da natureza do valor, que esboçamos, permite-nos enfrentar duas posições unilaterais, o subjetivismo e o objetivismo axiológicos. O subjetivismo axiológico reduz o valor de uma coisa a um estado psíquico subjetivo, a uma vivência pessoal; o valor é subjetivo porque para existir necessita da existência de determinadas reações psíquicas do sujeito individual, com as quais se identifica. Essa posição “Tem razão” quando sustenta que não existem objetos de valor em si, independentemente de qualquer relação com um sujeito. O subjetivismo erra quando recusa por completo as propriedades do objeto que podem determinar a atitude valorizadora do sujeito.
Mas, a reação do sujeito não é exclusivamente pessoal uma vez que ele pertence a uma época e sociedade. É por isso que o subjetivismo falha quando tenta reduzir o valor a uma mera vivência, ou estado psíquico subjetivo.
A separação radical entre o valor e a realidade ou independência dos valores com respeito aos bens em que se encarnam. Os valores são independentes com respeito a todo sujeito. Os valores existem em si e por si, independentemente de qualquer relação com o homem como sujeito que possa conhecê-los, apreendê-los ou avaliar os bens em que se encarnam. São, pois, valores em si e não para o homem. Como entidades absolutas e independentes, não precisam de ser postos em relação com os homens, como também não precisam de ser relacionados com as coisas (encarnar-se em bens). O homem pode manter diversas relações com os valores. Podem historicamente variar as formas de relação dos homem com os valores, nas nem ignorância de um valor nem as mudanças históricas no seu conhecimento ou na sua realização afetam minimamente a existência dos valores, já que estes existem de um modo intemporal, absoluto e incondicionado. Ainda que o objetivismo, atribuindo ao valor um caráter absoluto, intemporal e incondicionado, separe-o dos bens ou coisas valiosas, não pode deixar de reconhecer que o bem não poderia existir como tal sem o respectivo valor.
Objetividade dos valores
Nem o objetivismo nem o subjetivismo consegue explicar satisfatoriamente a maneira de ser dos valores. Os valores existem para um sujeito, entendido não no sentido de mero indivíduo, mas de ser social; exigem também um suporte material, sensível, sem o qual não têm sentido.
É o homem que cria os valores e os bens nos quais se encarnam, independentemente dos quais só existem como projetos ou objetos ideais.
Os valores possuem uma objetividade especial que se distingue da objetividade meramente natural ou física dos objetos que existem ou podem existir independentemente do homem, com anterioridade à sociedade. Trata-se de uma objetividade que transcende o limite de um indivíduo ou de um grupo social determinado, mas que: não ultrapassa o âmbito do homem como ser histórico-social.
Valores Morais e Não-Morais
Os objetos valiosos podem ser naturais, isto é, como aqueles que existem originariamente à margem ou independentemente do trabalho humano (o ar, a água ou uma planta silvestre), ou artificiais, produzidos ou criados pelo homem (obras de arte).
O vocábulo "bom" sublinha o fato de que o objeto em questão realizou positivamente o valor que era chamado a encarnar, servindo adequadamente ao fim ou à necessidade humana respectiva. A relação entre o objeto e a necessidade humana correspondente é uma relação intrínseca, peculiar, na qual o primeiro adquire seu estatuto como objeto valioso, integrando-se de acordo com ela, como um objeto humano específico.
os atos humanos de utilização a serviço de determinados fins, interesses ou necessidades pode ser qualificada de um ponto de vista moral. Vê-se, então, que os objetos úteis, ainda que se trate de objetos produzidos pelo homem, não encarnam valores morais, embora possam encontrar-se numa relação instrumental com estes valores. Por isso, estes objetos devem ser excluídos do reino dos objetos valiosos que podem ser qualificados moralmente. Um mesmo produto humano pode assumir vários valores, embora um deles seja o determinante. Assim, por exemplo, uma obra de arte pode ter não só um valor estético, mas também político ou moral. É inteiramente legítimo abstrair um valor desta constelação de valores, mas com a condição de não reduzir um valor ao outro. Posso julgar uma obra de arte por seu valor religioso ou político, mas sempre com a condição de nunca pretender deduzir desses valores o seu valor propriamente estético. Mas, ainda que os valores se juntem num mesmo objeto, não devem ser confundidos. Isso se aplica de uma maneira especial no caso dos valores morais e não-morais. Ao estabelecer a distinção entre os primeiros e os segundos, é preciso lembrar que os valores morais se encarnam somente em atos ou produtos humanos e, entre estes, naqueles realizados livremente, isto é, de um modo consciente e voluntário.

Objeto da ética (Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I)


Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I
Tema – Objeto da ética
Principal Bibliografia utilizada:não identificada;
Aula 03


Objeto da ética
Problemas morais e problemas éticos
Os indivíduos precisam pautar o seu comportamento por normas que se julgam mais apropriadas ou mais dignas de ser cumpridas; são aceitas intimamente e reconhecidas como obrigatórias. O homem age moralmente, a resultado de uma decisão refletida. Tanto os atos quanto os juízos morais pressupõem certas normas que apontam o que se deve fazer: denunciar o seu amigo traidor, pressupõe a norma os interesses da pátria devem ser postos acima dos da amizade.
De fato, o comportamento humano prático-moral remonta até as próprias origens do homem como ser social. Os problemas propostos pela moral prática, vivida, assim como as suas soluções, constituem a matéria de reflexão, o fato ao qual a teoria ética deve retornar constantemente para que não seja uma especulação estéril, mas sim a teoria de um modo efetivo, real, de comportamento do homem. Dá-se-assim a passagem da moral efetiva, vivida, para a moral reflexa. Essa passagem (início do pensamento filosófico) nos coloca na esfera dos problemas teórico-morais ou éticos.
Os problemas éticos são caracterizados pela sua generalidade. Se o indivíduo concreto enfrenta uma determinada situação, deverá resolver por si mesmo, com a ajuda de uma norma que reconhece e aceita, o problema de como agir de moralmente valiosa. A ética poderá dizer o que é um comportamento pautado por normas, ou em que consiste o fim (bom) visado pelo comportamento moral. Aristóteles se propõe o problema teórico de definir o que é o bom; investigar o conteúdo do bom, mas esta investigação teórica não deixa de ter conseqüências práticas, pois traça um caminho geral.
 Neste sentido, a teoria pode influir no comportamento moral-prático. As respostas sobre o que é o bom variam: para uns, é a felicidade ou o prazer, para outros, o útil, o poder, a autocriação do ser humano. Outros problemas éticos fundamentais são como o de definir a essência ou os traços essenciais do comportamento moral, à diferença de outras formas de comportamento humano (como a religião). O problema da essência do ato moral envia ao problema da responsabilidade; o problema da liberdade da vontade, por isso, é inseparável do da responsabilidade. Os homens em seu comportamento prático-moral, formulam juízos de aprovação ou de reprovação.
O problema metaético fundamental é examinar se se podem apresentar razões ou argumentos, para demonstrar a validade de um juízo moral e das normas morais. Os problemas teóricos e os problemas práticos, se diferenciam, mas não estão separados .
Campo da ética

De caráter prático, enquanto disciplina teórica tentou-se ver na ética uma disciplina normativa, cuja função fundamental seria a de indicar o melhor comportamento do ponto de vista moral. O ético transforma-se assim numa espécie de legislador do comportamento moral dos indivíduos ou da comunidade. Mas a função fundamental da ética é a mesma de toda teoria: explicar, esclarecer ou investigar uma determinada realidade, elaborando os conceitos correspondentes. Por outro lado, a realidade moral varia historicamente e, com ela, variam os seus princípios e as suas normas. Mas o campo da ética nem está à margem da moral efetiva, nem tampouco se limita a uma determinada forma temporal e relativa da mesma.
O valor da ética como teoria está naquilo que explica, e não no fato de prescrever ou recomendar com vistas à ação em situações concretas. Limita-se o domínio da ética aos problemas da linguagem e do raciocínio moral, embora as questões sobre a linguagem, natureza e significado dos juízos morais tenham uma grande importância (estudadas na metaética), não podem ser as únicas questões tratadas na ética e nem abordadas inde-pendentemente dos problemas éticos fundamentais. Não lhe cabe formular juízos de valor sobre a prática moral de outras sociedades, mas deve, antes, explicar a razão de ser desta pluralidade e das mudanças de moral. A ética parte do fato da existência da história da moral. A ética estuda uma forma de comportamento humano que os homens julgam valioso e, além disto, obrigatório e inescapável; a ética deve fornecer a compreensão racional de um aspecto real, efetivo, do comportamento dos homens.
Definição de ética
A ética não cria a moral. Conquanto seja certo que toda moral supõe determinados princípios, normas ou regras de comportamento, não é a ética que os estabelece numa determinada comunidade. A ética depara com uma série de práticas morais já em vigor e, partindo delas, procura determinar sua origem, as condições objetivas e subjetivas do ato moral, as fontes da avaliação moral, a natureza e a função dos juízos morais, os critérios de justificação destes juízos e o princípio que rege a mudança e a sucessão de diferentes sistemas morais. A ética é ciência de uma forma específica de comportamento humano. Seu objeto: o setor da realidade humana que chamamos moral, constituído por um tipo peculiar de fatos ou atos humanos. Parte de dados empíricos. Deve aspirar à racionalidade e objetividade mais completas e deve proporcionar conhecimentos sistemáticos, metódicos e comprováveis.
A ética é a ciência da moral. A moral não é ciência, mas objeto da ciência; e, neste sentido, é por ela estudada e investigada. A ética não é a moral, não pode ser reduzida a um conjunto de normas e prescrições;
Moral vem do latim mos ou mores, "costume" ou "costumes", no sentido de conjunto de normas ou regras adquiridas por hábito. Ética vem do grego ethos, que significa analogamente "modo de ser" ou "caráter" enquanto forma de vida também adquirida ou conquistada pelo homem.
Ética e filosofia
Na negação de qualquer relação entre a ética e a ciência se quer basear a atribuição exclusiva da primeira à filosofia. A ética é apresentada como uma parte de uma filosofia especulativa, constituída sem levar em conta a ciência e a vida real. Esta ética filosófica preocupa-se mais em buscar a concordância com princípios filosóficos universais do que com a realidade moral no seu desenvolvimento histórico e real,
Em favor do caráter puramente filosófico da ética, as questões éticas constituíram sempre uma parte do pensamento filosófico. Os filósofos gregos não deixaram de tratar em grau maior ou menor destas questões, a filosofia se apresentava como um saber total que se ocupava praticamente de tudo. Mas, nos tempos modernos, lançam-se as bases de um conhecimento científico, vários ramos do saber se desprendem da filosofia para constituir ciências especiais com um objeto específico de investigação e com uma abordagem sistemática, metódica, objetiva e racional comum às diversas ciências.
Desta maneira, a ética tende a estudar um tipo de fenômeno que se verifica realmente na vida do homem como ser social e constituem o que chamamos de mundo moral; ao mesmo tempo, procura estudá-los não deduzindo-os de princípios absolutos ou apriorísticos, mas afundando suas raízes na própria existência histórica e social do homem. As importantes contribuições do pensamento filosófico neste terreno devem ser altamente valorizadas porque conservam a sua riqueza e vitalidade.
Uma ética científica pressupõe necessariamente uma concepção filosófica imanentista e racionalista do mundo e do homem, na qual se eliminem instâncias ou fatores extramundanos ou super-humanos e irracionais. As questões éticas fundamentais devem ser abordadas a partir de pressupostos filosóficos básicos, como o da dialética da necessidade e da liberdade. Mas a ética científica deve apoiar-se numa filosofia estreitamente relacionada com as ciências, e não numa filosofia especulativa. Vemos que se a moral é inseparável da atividade prática do homem (material e espiritual), a ética nunca pode deixar de ter como fundamento a concepção filosófica do homem que nos dá uma visão total deste como ser social, histórico e criador.
A ética científica está estreitamente relacionada com a filosofia, embora não com qualquer filosofia.
Ética e outras ciências
Através de seu objeto a ética se relaciona com outras ciências.
 Assim, portanto, na medida em que os atos morais são atos de indivíduos concretos, por estes vividos ou interiorizados de acordo com a sua constituição psíquica, a ética não pode prescindir da ajuda da psicologia, entendida não-somente no sentido tradicional de ciência do psíquico consciente, mas também como psicologia profunda, ou dos fatores subconscientes que escapam ao controle da consciência e que não deixam de influenciar o comportamento dos indivíduos. Contudo, embora os atos morais tenham seu respectivo aspecto psíquico, a ética não se reduz à psicologia.
A ética apresenta também estreita relação com as ciências que estudam as leis que regem o desenvolvimento e a estrutura das sociedades humanas. Entre estas ciências sociais, figuram a antropologia social e a sociologia.
O estudo do comportamento moral não pode exaurir-se no seu aspecto social e de que a ética não se reduz à sociologia. No estudo do comportamento dessas comunidades, entra também a análise de seu comportamento moral. Seus dados e conclusões assumem grande importância no exame das origens, fonte e natureza da moral. Os antropólogos conseguiram estabelecer relações entre a estrutura social de uma comunidade e o código moral que as rege, demonstrando assim que as normas que hoje, de acordo com nosso código moral atual, parecem em certos casos imorais correspondem a certa forma de vida social.
Se existe uma diversidade de morais não só no tempo, mas também no espaço, e não somente nas sociedades que se inserem num processo histórico definido, mas inclusive naquelas sociedades hoje desaparecidas que precederam as sociedades históricas, é preciso que a ética como teoria da moral tenha presente um comportamento humano que varia e se diversifica no tempo. O antropólogo social, de um lado, e o historiador, do outro, colocam a relatividade das morais, seu caráter mutável, sua mudança e sucessão de acordo com a mudança e a sucessão das sociedades concretas. A antropologia e a história, ao mesmo tempo que contribuem para estabelecer a correlação entre moral e vida social, propõem à ética um problema fundamental: o de determinar se existe um progresso moral.
A teoria do direito pode trazer semelhante contribuição, graças à sua estreita relação com a ética, visto que as duas disciplinas estudam o comportamento do homem como comportamento normativo.
A ética se relaciona com a economia política como ciência das relações econômicas que os homens contraem no processo de produção. Esta vinculação se baseia na relação efetiva, na vida social, entre os fenômenos econômicos e o mundo moral. É uma relação de dois planos: na medida em que as relações econômicas influem na moral cominante numa determinada sociedade; e na medida em que os atos econômicos não podem deixar de apresentar uma certa conotação moral.
Vemos, portanto, que a ética se relaciona estreitamente com as ciências do homem, ou ciências sociais: psicológico, social, prático-utilitário, jurídico, religioso ou estético. 

Doutrinas éticas fundamentais (Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I)

Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I
Tema – Doutrinas éticas fundamentais
Principal Bibliografia utilizada:não identificada;
Aula 02

Doutrinas éticas fundamentais
Ética moderna
Possui uma tendência antropocêntrica, em contraste com a ética teocêntrica e teológica da Idade Média.
Ética antropocêntrica
A ética moderna se cultiva na nova sociedade que sucede à sociedade feudal da Idade Média e se pelo desenvolvimento da econômica, da ciência (Galileu e Newton) e das relações capitalistas. Na ordem social, surge a burguesia, que se preocupa com estender o seu poder econômico e luta para impor a sua hegemonia política através de uma série de; no plano estatal se criam os grandes Estados modernos, únicos e centralizados; na ordem espiritual, a Igreja Católica perde a sua função de guia, verificam-se os movimentos de reforma.  Na nova sociedade, consolida-se um processo: a razão separa-se da fé (e a filosofia, da teologia); a natureza, de Deus (e as ciências naturais, dos pressupostos teológicos); o Estado, da Igreja; e o homem, de Deus.
O homem aparece, portanto, no centro da política, da ciência, da arte e também da moral. Em Descartes há tendência a basear a filosofia no homem, embora este ainda se conceba como um abstrato eu pensante; nos iluministas e materialistas franceses, a filosofia está a serviço da tarefa de destruir os pilares ideológicos da ordem feudal-absolutista e de formar um novo homem em harmonia com a sua natureza racional (a filosofia deve orientar a reforma do homem); em Kant, o homem como consciência cognoscente ou moral, um ser ativo, criador e legislador, tanto no plano do conhecimento quanto no da moral. Desse modo tudo contribui para que a ética, libertada de seus pressupostos teológicos, seja antropocêntrica, embora este ainda se conceba de uma maneira abstrata, de natureza universal e imutável.
Ética de Kant
Kant contem-porâneo dos acontecimentos precedentes da Revolução de 1789. O pensador anseia por uma mudança revolucionária, mas, dadas as condições sociais alemã, esta mudança se operará somente no campo do pensamento. Afirma que realizou uma revolução copernicana ao inverter a ordem que se admitia tradicionalmente nas relações sujeito-objeto; no terreno do conhecimento  não é o sujeito que gira ao redor do objeto, mas ao contrário. O que o sujeito conhece é o produto de sua consciência, o mesmo se vê na moral: o sujeito (a consciência moral) dá a si mesmo a sua própria lei. Kant toma como ponto de partida da sua ética o factum (o fato) da moralidade. É um fato indiscutível que o homem se sente responsável pelos seus atos e tem consciência do seu dever, mas esta consciência obriga a supor que o homem é livre; dado que o homem é determinado casualmente e a razão teórica nos diz que não pode ser livre, é preciso admitir então, como um postulado da razão prática, a existência de um mundo da liberdade ao qual pertence o homem como ser moral. O problema da moralidade exige que se proponha a questão do fundamento da bondade dos atos: o único bom em si mesmo, sem restrição, é uma boa vontade. A bondade de uma ação se deve procurar na vontade com que se fez; é boa a vontade que age por puro respeito ao dever, sem razões outras a não ser o cumprimento do dever ou a sujeição à lei moral; o que a boa vontade ordena é universal por sua forma e não tem um conteúdo concreto: refere-se a todos os homens em todo o tempo e em todas as circunstâncias e condições, ou seja, o imperativo categórico a esse mandamento, assim: "Age de maneira que possas querer que o motivo que te levou a agir se torne uma lei universal."
O homem, longe de ser um fim em si, é meio, instrumento ou objeto e no qual, por outra parte, ainda não se verificam as condições reais, efetivas, para transformá-lo efetivamente em fim. Mas esta consciência tem um profundo conteúdo humanista, moral, e inspira. A ética kantiana é uma ética formal e autônoma; por ser puramente formal, tem de postular um dever para todos os homens; por ser autônoma, culmina no antropocentrismo; e por conceber o comportamento moral como pertencente a um sujeito autônomo e livre, ativo e criador, Kant é o ponto de partida de uma filosofia e de uma ética de um homem como ser ativo, produtor ou criador.
Ética contemporânea
Inclui-se, aqui, não só as doutrinas éticas atuais, mas também as que continuam exercendo o seu influxo em nossos dias.
 A sociedade racional dos iluministas, bem como o Estado hegeliano, encarnação da razão universal, revelam na realidade burguesa uma profunda irracionalidade. A ética contemporânea surge numa época de contínuos progressos científicos e técnicos e de um imenso desenvolvimento das forças produtoras, que acabarão por questionar a própria existência da humanidade, dada a ameaça que seus usos destruidores acarretam.
No plano filosófico, se apresenta em suas origens como uma reação contra o formalismo e o racionalismo abstrato kantiano, contra a forma absoluta que este adquire em Hegel. Na filosofia hegeliana, chega a seu apogeu a concepção kantiana do sujeito soberano, ativo e livre; mas, em Hegel, o sujeito é a Ideia, Razão ou Espírito absoluto
O pensamento ético também reage: contra o formalismo e o universalismo abstrato e em favor do homem concreto; contra o racionalismo absoluto e em favor do reconhecimento do irracional no comportamento humano; contra a fundamentação transcendente (metafísica) da ética e em favor da procura da sua origem no próprio homem.
Existencialismo
Kierkegaard, pai do existencialismo, se caracteriza como o Anti-Hegel, uma vez que critica o fato do homem se integra como um elemento a mais no desenvolvimento universal da razão, o racionalismo é indiferente à existência do indivíduo, valendo o que possui de abstrato e universal. Mas Kierkegaard, o que vale é o homem concreto, a sua subjetividade. Hegel pretende explicar tudo, mas não é possível uma explicação racional, objetiva, da existência individual. Por isso Kierkegaard contrapõe o seu irracionalismo absoluto e o seu individualismo radical, que é, por sua vez, um subjetivismo total, porque o indivíduo existe unicamente no seu comportamento plenamente subjetivo.
De acordo com o grau de autenticidade, Kierkegaard distingue três estágios na existência individual: estético, ético e religioso. O estágio superior é o religioso, a fé que o sustenta é uma relação pessoal subjetiva com Deus. Em seguida, no ético, o indivíduo deve pautar o seu comportamento por normas gerais, por isto, perde autenticidade. Por fim a estética.
Max Stirner, um dos precursores do anarquismo moderno. Pretende recuperar o homem concreto, encontrando-o no Eu, na vontade individual ou no único.
 Jean-Paul Sartre afasta-se de Kierkegaard por seu ateísmo; uma vez que Deus não existe, e é preciso deduzir desta verdade todas as consequências, não se pode falar em valores, princípios ou normas que possuam objetividade ou universalidade. Resta só o homem como fundamento sem fundamento dos valores; e afasta-se do individualismo niilista de Stirner pelo reconhecimento da necessidade de levar em consideração os outros. Dois componentes fundamentais se articulam, na filosofia de Sartre: o seu individualismo radical e o seu libertarismo.
Segundo Sartre, o homem é liberdade, a única fonte de valor; cada indivíduo escolhe livremente e, ao escolher, cria o seu valor. Cada ato ou cada indivíduo vale moralmente pelo uso que faz da própria liberdade. Essa é o valor supremo, o valioso é escolher e agir livremente. Mas só se pode tomar a liberdade como fim se tomar também como fim a liberdade dos outros. Em suma, não existindo valores transcendentes e universais, e admitindo-se somente a liberdade como valor supremo, a vida é um compromisso constante, um constante escolher por parte do indivíduo, tanto mais valioso moralmente quanto mais livre. Se nega a escolha arbitrária, porque a escolha é feita dentro de uma dada situação e em determinada estrutura social; apesar disto, a sua ética não perde o seu cunho libertário e individualista, dado que nela o homem se define: pela liberdade de escolha e pelo caráter radicalmente singular desta escolha.
Pragmatismo
Os principais expoentes são Ch. S. Pierce, W. James e J. Dewey. O progresso científico e técnico e o desenvolvimento do "espírito de empresa", bem como a correlativa mercantilização das várias atividades humanas, criavam condições favoráveis para a aparição e difusão de uma filosofia antiespeculativa, pragmatismo, afastada dos problemas abstratos da velha metafísica e atenta, sobretudo, às questões práticas, entendidas num sentido utilitário.
Caracteriza-se pela sua identificação da verdade com o útil, no sentido daquilo que melhor ajuda a viver e a conviver. Por conseguinte, os valores, princípios e normas são esvaziados de um conteúdo objetivo, e o valor do bom varia de acordo com cada situação. Apresenta-se como mais uma versão do subjetivismo e do irracionalismo.
Psicanálise e ética
 Foi fundada por Sigmund Freud; apesar de que ainda não se possa falar propriamente de uma ética psicanalítica, a concepção naturalista do homem torna lícito falar de uma ética de inspiração psicanalítica. O pressuposto básico da psicanálise é a afirmação de que existe uma zona da personalidade, da qual o sujeito não tem consciência, e que é precisamente o inconsciente. Nela são atirados e se armazenam recordações, desejos ou impulsos reprimidos que lutam para escapar desse fundo obscuro.
O inconsciente não é algo passivo e inerte, mas ativo e dinâmico, a energia que se manifesta nessa atividade inconsciente é de natureza sexual e se chama libido, para Freud.
Freud distingue três zonas da personalidade: o id, conjunto de forças, impulsos ou tendências inconscientes; o ego, que é a consciência em sentido próprio; e o superego, conjunto de normas e prescrições que são impostas ao sujeito de maneira autoritária e inconscien-te. O superego apresenta-se como uma espécie de consciência inconsciente que entra em conflito com a consciência moral (consciente); o comportamento moral do homem, que se apresenta como consciente, obedece a forças ou impulsos que escapam ao controle da sua consciência, Freud convida-a a levar em consideração essa motivação, pela qual chega-se a conclusão: se o ato propriamente moral é aquele no qual o indivíduo age consciente e livremente, os atos praticados por uma motivação inconsciente deve mostrar que é imoral julgar como moral o ato que obedece a forças inconscientes irresistíveis.
De outro lado, a psicanálise ajuda-a a colocar no seu verdadeiro lugar aquelas normas que são impostas ao sujeito de maneira autoritária. As contribuições da psicanálise de Freud: ampliou desmedidamente o campo e a influência dos fatores inconscientes, sem considerar o papel da educação e, em geral, dos fatores sociais; atribuiu ao inconsciente uma natureza exclusivamente sexual. Destas objeções deriva a tendência dos fatores sociais (Fromm), ou a admitir a existência de um inconsciente não exclusivamente sexual. Diferente de Freud, Fromm não crê que o comportamento do homem  possa ser explicado somente pela força dos instintos, mas também pelas relações do homem com o mundo externo: (1) assimilação de objetos e (2) socialização ou de relações com outras pessoas ou consigo mesmo. Freud lhes atribuía e imprime assim à psicanálise uma orientação social.
Marxismo
Os fundamentos da teoria marxista da moral o homem real é, em unidade indissolúvel, um ser espiritual e sensível, natural e propriamente humano, teórico e prático, objetivo e subjetivo. O homem é, antes de tudo, práxis: ser produtor, transformador, criador; mediante o seu trabalho, transforma a natureza externa, nela se plasma e, ao mesmo tempo, cria um mundo à sua medida, isto é, à medida de sua natureza humana. O homem é um ser social  e histórico.
Coloca as seguintes teses fundamentais para a ética:
1ª) A moral cumpre uma função social;
2ª) Até hoje existiram diferentes morais de classe, e inclusive numa mesma sociedade podem coexistir várias morais; portanto, moral universal, em que não pode existir um sistema moral válido para todos os tempos e para todas as sociedades.
3ª) A moral de cada sociedade ou classe tem um caráter relativo, mas na medida em que nela ocorrem, junto com os seus elementos caducos, elementos vivos, as morais particulares se integram num processo de conquista de uma moral verdadeiramente humana e universal.
4ª) A história está sujeita a uma necessidade objetiva, e as morais surgem nesse processo histórico necessário, o qual determina, por sua vez, a aparição delas; a necessidade da moral se explica pela função social que ela cumpre, de acordo com a estrutura social.
 5ª) Uma nova moral que deixe de ser a expressão das relações sociais alienadas torna-se necessária para regular as relações dos indivíduos, tanto em vista da transformação da velha sociedade, como em vista de garantir a unidade e a harmonia entre os membros da nova sociedade socialista.
6ª) A necessidade da moral na transformação radical da sociedade não significa cair num moralismo (do socialismo utópico) que deseja esta transformação mediante uma via moral, apelando para princípios de justiça ou para sentimentos morais. Se tomar consciência de que o homem é o ser supremo para o homem, e de que este está humilhado e abandonado, a transformação das relações sociais, que o retêm neste estado, converte-se num imperativo categórico.
 7ª) O homem deve intervir na transformação da sociedade porque, sem a sua intervenção pode ter um retorno à barbárie; toda tentativa de reduzir essa participação ao cumprimento de um imperativo moral transformaria a moral na "impotência em ação".

Ética Cristã Medieval (Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I)


Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I
Tema – Ética Cristã Medieval
Principal Bibliografia utilizada:não identificada;
Aula 01
Ética Cristã Medieval
O cristianismo se eleva, transforma-se na religião oficial de Roma (séc. IV) e termina por impor o seu domínio durante dez séculos. Com a queda de Roma, surge a sociedade medieval e o regime de suserania e vassalagem. Caracteriza-se pela fragmentação econômica e política, devido aos feudos; a religião garante uma certa unidade social, porque a política está na dependência dela e a Igreja, instituição que vela pela defesa da religião, exerce plenamente um poder espiritual e monopoliza toda a vida intelectual. A moral concreta, efetiva, e a ética estão baseadas em conteúdo religioso que encontramos em todas as manifestações da vida medieval.
A Ética Religiosa
É a arte de um conjunto de verdades reveladas a respeito de Deus, das relações d esse com Deus e do modo de vida prático que deve seguir para obter a salvação no outro mundo. Deus é concebido como um ser pessoal, bom, onisciente e todo-poderoso. O homem, como criatura de Deus, tem seu fim último em Deus, que é o seu bem mais alto e o seu valor supremo. Deus exige a sua obediência e a sujeição a seus mandamentos, que no mundo terreno têm o caráter de imperativos supremos.
O que o homem é e o que deve fazer definem-se essencialmente não em relação com uma comunidade humana (como a polis) ou com o universo inteiro, mas em relação a Deus. O homem vem de Deus e todo o seu comportamento, incluindo a moral, deve orientar-se para ele como objetivo supremo. A essência da felicidade (a beatitude) é a contemplação de Deus; o amor humano fica subordinado ao divino; a ordem sobrenatural tem a primazia sobre a ordem natural humana.
Também a doutrina cristã das virtudes expressa esta superioridade do divino. Embora assimile, como virtudes fundamentais, a prudência, a fortaleza, a temperança e a justiça, já proclamadas por Platão e que são as virtudes morais em sentido próprio, admite determinadas virtudes supremas ou teologais (fé, esperança e caridade). Enquanto as fundamentais regulam as relações entre os homens e são, por isto, virtudes em escala humana, as teologais regulam as relações entre o homem e Deus e são, por conseguinte, virtudes em escala divina.
O cristianismo pretende elevar o homem para uma ordem sobrenatural, para uma vida plena, feliz e verdadeira, sem as imperfeições, as desigualdades e injustiças terrenas. Propondo a solução de graves problemas do mundo num mais além, a ideia da igualdade dos homens. Todos os homens, sem distinção, são iguais diante de Deus e são chamados a alcançar a perfeição e a justiça num mundo sobrenatural.
A ética cristã medieval não condena a desigualdade social e chega, inclusive, a justificá-la. A igualdade e a justiça são transferidas para um mundo ideal, enquanto aqui se mantém e se sanciona a desigualdade social. De fato, o cristianismo deu aos homens, pela primeira vez, incluindo os mais oprimidos e explorados, a consciência da sua igualdade, exatamente quando não existiam as condições reais, sociais, de uma igualdade efetiva, que passa historicamente por uma série de eliminações de desigualdades concretas (políticas, raciais, jurídicas, sociais e econômicas). Na Idade Média, a igualdade só podia ser espiritual, ou também uma igualdade para um mundo sobrenatural, ou ainda uma igualdade efetiva, mas limitada no nosso mundo real e algumas comunidades religiosas. Por isto, tinha de coexistir necessariamente com a mais profunda desigualdade social, enquanto não se criassem as bases materiais e as condições sociais para uma igualdade efetiva. Assim, a mensagem cristã tinha um profundo conteúdo moral na Idade Média, isto é, quando era completamente ilusório e utópico propor-se a realização de uma igualdade real de todos os homens.  
Contudo, a ética cristã tende a regular o comportamento dos homens com vistas a outro mundo (a uma ordem sobrenatural), colocando o seu fim ou valor supremo em Deus. Disto decorre que, para ela, a vida moral alcança a sua plena realização somente quando o homem se eleva a esta ordem sobrenatural; e daí decorre, também, que os mandamentos supremos que regulam o seu comportamento, e dos quais derivam todas as suas regras de conduta, procedem de Deus e apontam para Deus como fim último. O cristianismo como religião oferece assim ao homem certos princípios supremos morais que, por virem de Deus, têm para ele o caráter de imperativos absolutos e incondicionados.
Ética Cristã Filosófica
O cristianismo não é uma filosofia, mas uma religião. Apesar disto, faz-se filosofia na Idade Média para esclarecer e justificar, lançando mão da razão, o domínio das verdades reveladas ou para abordar questões que derivam das questões teológicas. A filosofia era serva da teologia; subordinando-se a filosofia à teologia, também se subordina a ética.
Assim verifica-se também uma ética limitada pela sua índole religiosa e dogmática. Nesta elaboração conceitual dos problemas filosóficos em geral, e morais em particular, submete pensamentos da antiguidade a uma cristianização, como com Platão e Aristóteles; transparece especialmente na ética de Santo Agostinho e de Santo Tomás de Aquino.
A purificação da alma, em Platão, e a sua ascensão libertadora até elevar-se às ideias, transforma-se em Santo Agostinho na elevação ascética até Deus, que culmina no êxtase místico ou felicidade, que não pode ser alcançada neste mundo. Contudo, Santo Agostinho se afasta do pensamento grego antigo ao sublinhar o valor da experiência pessoal, da interioridade, da vontade e do amor. A ética agostiniana se contrapõe ao racionalismo ético dos gregos.
A ética tomista coincide nos seus traços gerais com a de moral Aristóteles, sem esquecer, porém, que se trata de cristianizar a sua como, em geral, a sua filosofia. Deus, para Santo Tomás, é o bem objetivo ou fim supremo, cuja posse causa gozo ou felicidade, que é um bem subjetivo; nisto se afasta de Aristóteles, para quem a felicidade é o fim último. Mas, como em Aristóteles, a contemplação, o conhecimento (como visão de Deus) é o meio mais adequado para alcançar o fim último. Por este acento intelectualista, aproxima-se de Aristóteles.
Na sua doutrina político-social, atém-se à tese do homem como ser social ou político, e, ao referir-se às diversas formas de governo, inclina-se para uma monarquia moderada, ainda que considere que todo o poder derive de Deus e o poder supremo caiba à Igreja.

Ética Grega (Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I)

Ética, Cidadania e Realidade Brasileira I
Tema – Ética Grega
Principal Bibliografia utilizada:não identificada;
Aula 01

Ética Grega
Os problemas éticos são objetos na filosofia grega quando se democratiza a vida política (Atenas).
Ao naturalismo dos pré-socráticos (1º filósofos) apresenta uma preocupação com os problemas do homem, sobretudo políticos e morais. As novas condições do século V a.C. em muitas polis a substituição da aristocracia pela democracia escravista; a democratização da vida política, criação de instituições eletivas e o desenvolvimento de uma vida pública, deram origem à filosofia política e moral.
A Polis era composta por 1/3 de escravos, uma grande maioria de estrangeiros e mulheres, ou seja, pessoas que não participam da vida política. Cidadãos eram quase 10% da população; em Atenas, os cidadãos de reuniam na Aglas para discutir sobre a política.
Os Sofistas
Movimento intelectual na Grécia do século V a.C. Sofista significa amor pelo conhecimento; o mestre ou sábio. Eram estrangeiros que iam de Polis em Polis ensinando. Ambicionam um conhecimento prático, tendente a influir na vida pública, por esta razão, se transformam em mestres da arte de convencer, ou retórica; essa necessidade da retórica refletia a realidade da Polis, que exigia êxito na vida política, a arte de expor, argumentar ou discutir. Eles cobravam por isso, o que causou grande escândalo dos seus concidadãos, mesmo assim, não deixava de ter uma grande aceitação, até o ponto de converter os sofistas numa verdadeira força social.
O sofista reage contra o saber a respeito do mundo porque o considera estéril e se sente atraído especialmente por um saber a respeito do homem, particularmente político e jurídico. A arte de persuadir é desenvolvida e transmitida pondo em dúvida não só a tradição, mas a existência de verdades e normas universalmente válidas. Ensinavam que não existe nem verdade nem erro, e as normas, por serem feitas pelo homem, são transitórias.
Protágoras cai assim no relativismo ou subjetivismo (tudo é relativo ao sujeito, ao "homem, medida de todas as coisas"), e Górgias sustenta que é impossível saber o que existe realmente e o que não existe.
Sócrates
Adversário da democracia ateniense e mestre de Platão, foi acusado de corromper a juventude e condenado a beber cicuta, morrendo em 399. Igualmente os sofistas, depreza o conhecimento da natureza, crítica da tradição, mas rejeita o seu relativismo e subjetivismo. Para Sócrates, o saber fundamental é o saber a respeito do homem (daí a sua máxima: "conhece-te a ti mesmo"), que se caracteriza, por sua vez, por estes três elementos: 1) é um conhecimento universalmente válido (contra os sofistas); 2) é, antes de tudo, conhecimento moral; e 3) é um conhecimento prático (conhecer para agir retamente).
Sua ética é racionalista. Nela encontramos uma concepção do bem (como felicidade da alma) e do bom (como o útil para a felicidade;, a tese da virtude (areté - capacidade radical e última do homem ) como conhecimento, e do vício como ignorância (quem age mal é porque ignora o bem; por conseguinte, ninguém faz o mal voluntariamente); e a tese, de origem sofista, segundo a qual a virtude pode ser transmitida ou ensinada.
Em suma, bondade, conhecimento e felicidade se entrelaçam estreitamente. O homem age retamente quando conhece o bem e, conhecendo-o, não pode deixar de praticá-lo; por outro lado, aspirando ao bem, sente-se dono de si mesmo e, por conseguinte, é feliz.
Platão
Também Ateniense, fora discípulo de Sócrates e, como este, inimigo da democracia ateniense. A Pena do seu mestre induzem-no a renunciar à política efetiva. A ética de Platão se relaciona intimamente com a sua filosofia política, porque para ele (como para Aristóteles) a polis é o terreno próprio da vida moral. A ética, assim como a política, depende da sua:
                                I.            Concepção metafísica - dualismo do mundo sensível e o das ideias permanentes, eternas, perfeitas e imutáveis, que constituem a verdadeira realidade e têm como cume a Ideia do Bem, divindade, artífice ou demiurgo do mundo;
                              II.            Doutrina da alma - princípio que anima ou move o homem e consta de três partes: razão, vontade ou ânimo, e apetite; a razão que contempla e quer racionalmente é a parte superior, e o apetite, relacionado com as necessidades corporais, é a inferior.
Cria a teoria da reminiscência: o mundo das ideias e o mundo da realidade. Para ele, inicialmente teríamos um contato com as ideias perfeitas e imutáveis; ao nascer, passaríamos ao mundo da realidade. Nessa transição, o homem passa por uma amnésia, ficando apenas com um pequeno conhecimento, e por isso, quando se aprende algo está apenas recordando-se de algo, daquilo que esquecera na transição. Representa a ideia da alegoria da caverna, na qual o filósofo seria o responsável por “acordar” os outros.
Coloca a alma como, faculdade superior e característica do homem, que se eleva, mediante a contemplação, ao mundo das ideias. Seu fim último é purificar ou libertar-se da matéria para contemplar o que realmente é e a Ideia do Bem. Para alcançar tal purificação é preciso praticar várias virtudes, que correspondem a cada uma das partes da alma e consistem no seu funcionamento perfeito: a virtude da razão é a prudência; a da vontade ou ânimo, a fortaleza; e a do apetite, a temperança. Essas virtudes guiam ou refreiam uma parte da alma. A harmonia entre as diversas partes constitui a quarta virtude, justiça. Como o indivíduo por si só não pode aproximar-se da perfeição, torna-se necessário o Estado. A ética desemboca necessariamente na política.
Em A República, Platão constrói um Estado ideal à semelhança da alma. A cada parte desta, corresponde uma classe especial que deve ser guiada pela respectiva virtude: à razão, a classe dos governantes filósofos, guiados pela prudência -; ao ânimo ou vontade, a classe dos guerreiros, defensores do Estado, guiados pela fortaleza; e ao apetite, os artesãos e os comerciantes, encarregados dos trabalhos materiais e utilitários, guiados pela temperança. Cada classe social deve consagrar-se à sua tarefa especial e abster-se de realizar outras. De modo análogo ao que sucede na alma, compete à justiça social estabelecer na cidade a harmonia indispensável entre as várias classes. E, com o fim de garantir esta harmonia social, Platão propõe a abolição da propriedade privada para as duas classes superiores (governantes e guerreiros). Na ética platônica transparece o desprezo, característico da Antiguidade, pelo trabalho físico e, por isto, os artesãos ocupam o degrau social inferior e se exaltam as classes dedicadas às atividades superiores (a contemplação, a política e a guerra). Por outra parte, de acordo com as ideias dominantes e com a realidade política e social daquele tempo, não há lugar algum no Estado ideal para os escravos, porque desprovidos de virtudes morais e de direitos cívicos. Com estas limitações da classe, encontramos na ética de Platão a estreita unidade da moral e da política, dado que, para ele, o homem se forma espiritualmente somente no Estado e mediante a subordinação do indivíduo à comunidade.
Aristóteles
De Estagira, Macedônia, fora discípulo de Platão em Atenas e professor de Alexandre, o grande; Fundou a própria escola, o Liceu, cujos discípulos eram chamados de peripatéticos, porque aprendiam enquanto passeavam com o seu mestre.
Se opõe ao dualismo ontológico de Platão: não há outra realidade a não ser a que vivemos, sendo ela imperfeita e a morte é exemplo dessa perfeição; a ideia existe somente nos seres individuais. Mas, no ser individual, é preciso distinguir o que é atualmente e o que tende a ser, ou seja, o ato e a potência (o grão é planta em potência e a planta, como ato, é a realização definitiva da potência). A mudança universal é passagem da potência ao ato. Deu é o único que é ato puro, sem potência. Também o homem deve realizar com seu esforço o que é potência, para realizar-se como ser humano.
O homem é atividade, passagem da potência ao ato; essa atividade tem diversos fins, que servem para alcançar outros e que entram no campo da moral. Para Aristóteles, o fim de todos os homens é a felicidade, eudaimonia, que é conseguido por meio da razão; esta vida não se realiza acidental e esporadicamente, mas mediante a aquisição de certos modos constantes de agir (ou hábitos) que são as virtudes. Estas não são atitudes inatas, mas modos de ser que se adquirem ou conquistam pelo exercício e, já que o homem é ao mesmo tempo racional e irracional, é preciso distinguir duas classes de virtudes: intelectuais ou dianoéticas, que operam na razão humana, e práticas ou éticas, que operam no irracional (nas suas paixões e apetites, canalizando-os racionalmente).
Por sua vez, a virtude consiste no termo médio entre dois extremos: um excesso e um defeito. Assim, o valor está entre a os dois extremos, a virtude é um equilíbrio entre dois.
A felicidade, que se alcança mediante a virtude, exige necessariamente algumas condições (maturidade, bens materiais, liberdade pessoal, saúde etc.), embora estas condições não bastem sozinhas.
Assim como a ética de Platão, a de Aristóteles está unida à sua filosofia política, já que para ambos a comunidade social e política é o meio necessário da moral. Somente nela pode realizar-se o ideal da vida teórica na qual se baseia a felicidade. O homem enquanto tal só pode viver na polis; é, por natureza, um animal político, social. Somente os deuses ou os animais não têm necessidade da comunidade política para viver. Por conseguinte, não pode levar uma vida moral como indivíduo isolado, mas como membro da comunidade. Por sua vez, porém, a vida moral não é um fim em si mesmo, mas condição ou meio para a vida teórica na qual consiste a felicidade. Essa vida teórica que pressupõe a vida em comum é acessível só a uma minoria (elite), além de implicar uma estrutura social na qual a maior parte da população (os escravos) mantém-se excluída não só da vida teórica, mas da vida política. Por esta razão, a verdadeira vida moral é exclusiva de uma elite que pode realizá-la no âmbito de uma sociedade baseada na escravidão. Dentro desse âmbito, o homem bom (o sábio) deve ser, ao mesmo tempo, um bom cidadão.
Período Helenístico/Período Alexandrino - Estóicos e Epicuristas
O estoicismo e o epicurismo surgem no processo de decadência do império grego-romano, marcado pela perda de autonomia dos Estados gregos e pela organização, desenvolvimento e queda dos grandes impérios: primeiro o macedônio, e depois o romano. O estoicismo tem como seus principais representantes Zenão de Cítio, na Grécia, e Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio, em Roma; o epicurismo está representado por Epicuro, na Grécia, e por Tito Lucrécio Caro, em Roma.
Para ambos, a moral se define em relação ao universo, sobre o fundo da necessidade física, natural, do mundo. Por isto, em ambos, a física é a premissa da ética.
Para os estóicos, o mundo, ou cosmos é um único grande ser que tem Deus como princípio, alma ou razão, sendo aquele o seu animador ou coordenador. No mundo acontece somente o que Deus quer, e, assim, domina nele uma fatalidade absoluta; não existe nem liberdade nem acaso. O homem, como parte deste mundo, possui nele o seu destino, resta ao homem aceita-lo e agir consciente dele, essa é a atitude do sábio. O bem supremo é viver de acordo com a natureza, ou seja, de acordo com a razão, com consciência do nosso destino e de nossa função no universo, sem se deixar levar por paixões ou afetos interiores ou pelas coisas exteriores. Praticando para isso a apatia e a imperturbabilidade, o homem (o sábio) se firma contra as suas paixões ou contra os reveses do mundo exterior, e conquista a sua liberdade interior bem como sua autarquia (ou auto-suficiência) absoluta. Deixa de ser necessário a comunidade para a vida moral. O estóico vive moralmente como cidadão do cosmos, não da polis.
Para os epicuristas, tudo o que existe, incluindo a alma, é formado de átomos materiais que possuem um certo grau de liberdade, na medida em que se podem desviar ligeiramente na sua queda. Não há intervenção divina nos fenômenos físicos ou na vida do homem. Liberta-se do temor religioso, o homem pode buscar o bem neste mundo (que para eles era o prazer). Mas há muitos prazeres, e nem todos são igualmente bons; assim, é preciso escolher entre eles para encontrar os mais duradouros e estáveis, que são os espirituais; porque contribuem para a paz da alma. Em suma, epicurista alcança o bem, retirado da vida social, sem cair no temor do sobrenatural, encontrando em si mesmo, ou rodeado por um pequeno círculo de amigos, a tranquilidade da alma e a auto-suficiência.
Deste modo, na ética epicurista e estóica, que surgem numa época de decadência e de crise social, a unidade da moral e da política, sustentada pela ética grega anterior, se dissolve.